A quaresma dos 40 dias, anos, séculos, de caminhadas faz pensar e faz viver ao ritmo de Cristo, Salvador.

Há cerca de quatro milénios de tradições orais e escritas que os Hebreus da tribo de Abraão de Ur e do povo da sua descendência foram surpreendidos no deserto por um Deus que se deu a conhecer e disse que era o único Deus. Oferecia a sua aliança, pedia aceitação e prometia fazer deles um grande povo para todo o sempre (Gen 15,5-12.17-18). Eles, uma tribo de errantes, eram assim tão importantes entre tantos impérios e povos poderosos e com muitos deuses? E esse povo errante, minúsculo, insignificante, de desertos inóspitos, aceitou e prometeu cumprir os mandamentos desse Deus único. Foi muitas vezes infiel mas nunca abandonou a esperança alimentada por tantos profetas da vinda de um Messias de sofrimento e grandeza, rei e libertador.

Um salvador que a maioria desse povo esperou e muitos ainda esperam. E os profetas até deram sinais de chegada, de quem seria e como seria esse messias que os libertaria.

Há dois milénios parte desse povo reconheceu em Jesus Cristo esse Messias Salvador. Outra parte, porém, não o reconheceu porque se manifestou fraco, sem poder guerreiro. Não era libertador poderoso. A maioria do judaísmo rejeitou-o; não era ele. Contudo pequena parte dos judeus aceitaram-no; muitos gentios também o aceitaram.

Jesus foi Messias rejeitado, vencido, morto, mas ressuscitou e iniciou o novo Povo de Deus que transbordou, tornou-se numeroso «como as estrelas do céu» e recebeu o nome de Cristianismo. Ficou o mistério: o povo hebreu continua guardião e garante rigoroso das narrativas proféticas do Messias, apesar de grande parte rejeitar Aquele que as cumpriu e uma pequena parte as aceitar cumpridas em Jesus. Para uns teria de aparecer no tempo messiânico do I século como Messias terreno triunfante e guerreiro; para outros bastou ser Jesus Cristo, morto e ressuscitado, com aparece nos Evangelhos.

Houve outros messias guerreiros no século I de libertação de Israel, mas sem sucesso. E um judeu renegado, Flávio Josefo, torceu as profecias (cf. Vittorio Messori em que me inspiro), para dizer que o messias libertador era Vespasiano o imperador romano! Fica a questão: como é possível que a maioria dos Judeus, de todos os tempos, mantenha fé nas profecias messiânicas do Antigo Testamento, mas não acredite que Cristo as cumpriu?

Guardam ciosamente as Escrituras, fazem todas as investigações literárias e arqueológicas para confirmar as narrativas do Antigo Testamento, talvez mais que os Cristãos e a Igreja Católica e não as consideram cumpridas. Como se explica que sejam guardiões da Revelação do Deus único ao seu povo a viver entre povos politeístas? Se os Hebreus trocaram muitas divindades por um só Deus, só parece ter sido possível por intervenção do próprio Deus Único! A partir daí, mais de um terço da humanidade atual acerta sua vida por um Deus único e seu Filho Jesus Cristo, o Messias das Profecias, morto e ressuscitado; embora vivam com fraquezas, infidelidades e pecados.

Enquanto apenas duas ou três escassas dezenas de milhões, guardiões fiéis e rigorosos da letra das Profecias do povo do Deus único, rejeitam Jesus Cristo e promovam a esperança num messianismo (terreno?), rico, poderoso e dominador. É admirável a sua tenacidade fiel às tradições da aliança com Deus, também no meio de fraquezas, infidelidades e pecados!

Como rejeitam, então, que as Profecias estejam cumpridas em Jesus Cristo? Quase tão inexplicável e surpreendente como Jesus e o Cristianismo, para tantos filósofos e letrados eruditos, ser considerado «irremediavelmente tabo»? Parece que «Jesus está entre os assuntos que criam mal-estar numa conversação civilizada» como Messori inicia o seu livro (Hipóteses sobre Jesus, Vittorio Messori, Edições Salesianas, 1987). As razões complexas que levam os Hebreus a não fazer a passagem (quaresmal do deserto) do Antigo para o Novo Testamento são semelhantes às que hoje levam muitos a optar por algum messias político poderoso e vencedor armado e a rejeitar o Messias do Antigo e Novo Testamento que só depois do deserto, paixão e morte ressuscitou glorioso, como se refere na transfiguração (Lc 9, 28-36), mas continuou a vencer os corações pelo amor para a vida da glória dos que aceitam o deserto com Ele.

P. Aires Gameiro - 18 Março, 2019 – disponível em https://www.jornaldamadeira.com


 

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