Um dos cinco pilares da religião islâmica é a prática da Caridade. Os que podem dão 2,5% da renda anual em favor de obras assistenciais ou culturais. [Os outros quatro pilares são a fé, a oração cinco vezes ao dia, o jejum do Ramadão e a peregrinação a Meca].

No Cairo, em pleno mês do Ramadão, perguntei ao nosso guia que pessoas costumavam ser os alvos dessa caridade. A resposta foi imediata: os familiares. Quer dizer: a caridade é para a família! E eu logo pensei na enorme diferença entre o islamismo e o cristianismo quanto ao conceito de caridade, tal como entre o judaísmo e o cristianismo. Sobre este, temos o diálogo entre um escriba e Jesus, narrado por Lucas (Lc 10, 20-35), sobre «quem é o meu próximo?» ou «quem deve ser o alvo da minha caridade»? Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. [...] Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas [...]” - e o resto já nós sabemos, porque conhecemos a parábola por inteiro. A pergunta-chave do debate (quem é o meu próximo?) segue-se o raciocínio sobre a resposta: será o que está geograficamente ao pé de mim? Será o amigo e o familiar? — A questão é decisiva, porque Jesus inverte o conceito de «proximidade» que, então, se tinha.

Na tradição judia era costume atribuir-se ao termo «próximo» o sentido de vizinho, amigo, membro da família, alguém do grupo, alguém do próprio povo. Na parábola, o samaritano não era isso, antes pelo contrário. Era quase um inimigo, um sujeito ignorado, excluído, sem interesse, indigno de misericórdia, alguém a quem se devia voltar as costas. Na lógica judaica, o amor ao próximo limitava-se ao amor etnocêntrico e traduzia-se assim: «amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo».

Mas a parábola muda o enfoque. Próximo é o que pratica a misericórdia com o ferido. Próximo não é o alvo da caridade, mas o agente da caridade. E o que se aproxima do ferido, do necessitado, da vítima. Próximo sou eu quando me faço próximo da outra pessoa com o propósito benevolente, misericordioso, assistencial, solidário. Por conseguinte, amar o próximo não é amar quem me é familiar; é, antes, aproximar-me de quem precisa de solidariedade. Bem diferente da doutrina cristã, os judeus interpretavam a seu jeito e proveito o conceito de próximo; e os muçulmanos aplicam de forma individualista e etnocêntrica o conceito de caridade. Na interpretação cristã do amor ao próximo, ressaltam duas novas perspetivas: a universalidade (fazer o bem sem olhar a quem) e a obrigação do compromisso da solidariedade, não por haver um preceito legal, mas porque cada um se sente moralmente «obrigado» a responder ao apelo que o necessitado lhe lança. Não é a lei que obriga, mas a necessidade da vítima que postula a solidariedade. São as feridas, o seu sofrimento, a situação de prostração que exigem a aproximação solidária dos viandantes.

Está em causa o conceito de justiça à moda da teologia dos profetas do Antigo Testamento, que a concebem como a solidariedade efetiva que torna plenamente humanos os homens.

Cón. Manuel Maria in a defesa (16 de janeiro de 2019)


 

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