Não gosto deste título. Incomoda-me. Pode ser de material precioso, mas um pote com os restos mortais de alguém que tanto nos amou e a quem tanto queremos é demasiado cruel à vista. Lá dentro estão somente alguns ossos que, depois da cremação do corpo, foram triturados, moídos e feitos pó. O corpo está, agora, transformado em menos de dois quilogramas de cinzas. Há familiares que, ao ver-se com aquela urna nas mãos, não sabem muito bem o que fazer. Como «cada cabeça sua sentença», a imaginação tem sido fértil. Tem havido de tudo. Uns guardam as cinzas em casa, outros colocam- -nas no jardim debaixo ou junto das raízes de uma árvore, outros deitam-nas à água - no mar, no rio ou na albufeira de uma barragem — outros dividem-nas pela família como se fosse uma herança.

Porque a prática da cremação se tornou recorrente e, ao mesmo tempo, se difundem novas e velhas ideias que contrastam com a fé da Igreja, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou a Instrução Ad ressurgendum cum Christo, onde se repõem razões doutrinais e pastorais favoráveis à sepultura dos corpos e, ao mesmo tempo, se dão normas sobre a conservação das cinzas no caso da cremação. Trata-se de um documento orientador, específico para os católicos, mas genérico e passível de ser seguido por todas as pessoas, religiosas ou não. Em primeiro lugar, está o respeito pela pessoa. Logo a seguir, a fé na ressurreição de Jesus que é princípio e fonte da nossa ressurreição futura. Depois, o significado positivo que a morte cristã tem: “Para os que creem em vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma; e, desfeita a morada deste exílio terrestre, adquirimos no céu uma habitação eterna”. Na morte, o espírito separa-se do corpo, mas, na ressurreição, Deus torna a dar vida incorruptível ao corpo transformado — assim o ensinamento da Igreja. Por tudo isto, seguindo a antiga tradição cristã, a Igreja não pode permitir comportamentos e ritos que envolvam conceções erróneas sobre a morte. Constituem conceções erróneas sobre a morte estas quatro ideias: que é o aniquilamento definitivo da pessoa; que é o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo; que é uma etapa no processo da reincarnação; que é a libertação definitiva da prisão do corpo. Onde, por razões de tipo higiénico, social ou económico, se escolhe a cremação (que nunca deverá ser contrária à vontade explícita ou razoavelmente presumível do fiel defunto), a Igreja não vê razões doutrinais para impedir tal práxis. Mas ensina que as cinzas do defunto devem ser conservadas num lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, numa igreja ou num lugar especialmente dedicado a esse fim.

Por isso, não consente a conservação das cinzas em casa, nem a sua divisão e distribuição entre os vários núcleos familiares. E deve ser assegurado o respeito e as adequadas condições de conservação das mesmas. Para evitar equívocos panteístas, naturalistas ou niilistas, não se permite a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou em qualquer outro lugar. Exclui-se, ainda, a conservação das cinzas, sob a forma de recordação comemorativa, em peças de joalharia ou em outros objetos. Razoabilidade, tato, dignidade e sensibilidade - é o que a Igreja propõe.

Cón. Manuel Maria in a defesa de 17 de janeiro 2018


 

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